Saturday, December 30, 2006

Os Livros e a Censura em Portugal


Os Livros e a Censura em Portugal, um texto no Vidas Lusófonas, onde naturalmente surgem referências a edições de Fernando Ribeiro de Mello.
"Julgados em plenário foram ainda, por causa do livro Poesia Erótica e Satírica, Natália Correia, Ary dos Santos, Mário Cesariny, Ernesto Melo e Castro, Luiz Pacheco e o editor Fernando Ribeiro de Melo. Condenados com multas e prisão remível. Os dois últimos voltaram ao plenário para outro julgamento, o da tradução e publicação da Filosofia na Alcova, de Sade, que juntou no mesmo processo Herberto Helder e o pintor João Rodrigues."

Thursday, December 14, 2006

Onde há livros Afrodite


Finalmente a Artes & Letras tem o seu site remodelado. Numa busca a Editor /Afrodite, encontramos três edições das mais interessantes.

Com site na internet, é na livraria Letra Livre que se encontram mais livros das Edições Afrodite.

Quem tem sempre livros das Edições Afrodite é o Nascimento, sem loja e site, mas com mail: crismarti@sapo.pt. É só contactar.

Jorge de Sena sobre o seu Físico Prodigioso na Antologia do Conto Fantástico Português, 2.ª Edição

Este O Físico Prodigioso teve a sua 1.ª edição, quando foi incluído em Novas Andanças do Demónio, colectânea de contos meus publicada em 1966, a segunda, precedida que havia sido por Andanças do Demónio em 1960, e seguida que foi em 1976 por Os Grão-Capitães. Descoberto como «conto fantástico» por E. M. de Melo e Castro, foi incluído na reedição, por ele preparada, da Antologia do Conto Fantástico Português, Lisboa 1974. Tal inclusão pode dizer-se que constituiu uma reedição do texto.

......

De segunda vez, quando Melo e Castro me pediu autorização para incluir o texto na reedição revista daquela antologia cuja primeira edição não havia sido sua, aceitei gratamente, menos por mim que por amor desse «físico», meu muito bem-amado filho entre outros, e que sempre tive por como que um «alter-ego». Mas, ao autorizar a inclusão, eu não sabia que o antologista declararia o texto como «modelo superlativo do conto fantástico português em moldes clássicos, sendo construído sobre duas histórias fantásticas tradicionais (populares?)». Quem é que não ficaria rendido, lisonjeado e grato com estas palavras? Eu fiquei.

Santa Bárbara, Califórnia, Março de 1977
Jorge de Sena

Antologia do Conto Fantástico Português, 2.ª Edição

(edição de Abril de 1974)

capa

Revisão, notas e introdução de E. M. de Melo e Castro
Capa e frisos ilustrativos de Martim Avillez

Autores e contos:

Alexandre Herculano – A Dama Pé-de-Cabra
Rebelo da Silva – A Torre de Caim
Júlio César Machado – Uma Récita do Roberto do Diabo
Júlio Dinis – O Canto da Sereia
Manuel Pinheiro Chagas – A Igreja Profanada
A. Osório de Vasconcelos – A Torre Derrocada
Teófilo Braga – O Véu
Álvaro do Carvalhal – Os Canibais
Eça de Queirós – O Defunto
M. Teixeira Gomes – Sede de Sangue
Fialho de Almeida – A Princesinha das Rosas
Raúl Brandão – O Mistério da Árvore
Aquilino Ribeiro – A Reencarnação Deliciosa
Mário de Sá-Carneiro – A Estranha Morte do Prof. Antena
José de Almada Negreiros – O Cágado
Ferreira de Castro – O Senhor dos Navegantes
José Gomes Ferreira – A Princesa nº 46 734
José Rodrigues Miguéis – Regresso à Cúpula da Pena
José Régio – O Caminho
Branquinho da Fonseca – O Anjo
Hugo Rocha – A Noite de Walpurgis
José de Lemos –
Ritinha
Jorge de Sena – O Físico Prodigioso
Natália Correia – O Aplaudido Dramaturgo Curado Pelas Pílulas Pink
Mário Henrique Leiria – Fc, o Banho e não só
Urbano Tavares Rodrigues –
Trânsito
Carlos Wallenstein – A Maravilhosa História do Internamento
David Mourão-Ferreira – Nem Tudo é História
Ana Hatherly – No Restaurante
Herberto Helder -
Teorema
Maria Alberta Menéres – O Elephans-Pinguim
Àlvaro Guerra – O Cavalo Branco
Dórdio Guimarães – O Homem das Batalhas
António Barahona da Fonseca – A Viúva Ester
Almeida Faria –
Peregrinação



Texto na badana

Esta é a 2ª edição da Antologia do Conto Fantástico Português: uma remodelação da 1.ª (1967), depois de se ter considerado que o assunto exigia bases mais rigorosas:
- uma mais aprofundada definição de fantástico
- uma, portanto, mais estreita selecção dos textos a incluir.
Aproveitando a investigação que a 1.ª edição realizara e tendo em consideração alguns estudos posteriormente realizados no campo da literatura fantástica (especialmente através do método estrutural), esta 2.ª edição da nossa Antologia exclui todos os textos que rigorosamente não caibam nos limites do género fantástico, como sejam os que se convencionou chamar género absurdo, macabro ou negro, metafísico, inacreditável...
No seu lugar aparecem textos novos e importantes de novos autores, como sejam Júlio Dinis, Hugo Rocha, Jorge de Sena, José Gomes Ferreira, Mário Henrique Leiria, Herberto Helder e Álvaro Guerra.
Esperamos que o escrúpulo posto nesta 2.ª edição (que também acrescenta notas críticas de apresentação de cada um dos trinta e cinco textos e um estudo introdutório visando a desmontagem das constantes estruturais do tema) e a preocupação de tornar mais exacto, mais esclarecedor e sugestivo este livro – cujo fascinante tema dia a dia conquista maior atenção e estudo nas literaturas de todo o mundo – dele façam a obra acabada e percursora que desde o princípio se propôs ser adentro da nossa cultura.

Saturday, December 09, 2006

Acerca da edição de 1966 da Filosofia na Alcova

Com alguma informação sobre as Edições Afrodite / Fernando Ribeiro de Mello, existe uma edição de 1992, da extinta Hiena, intitulada: O Marquês de Sade e a sua Cúmplice, seguido de Portugal em Sade, Sade em Portugal. A primeira parte desta edição é de Jean Paulhan e a segunda é um texto de António Carmo Luís, intitulado: Portugal em Sade, Sade em Portugal (história, histórias...) – adaptação de um capítulo do livro inédito Sete Encenações Falhadas de uma Batalha Campal. Parte deste texto é dedicado às Edições Afrodite, principalmente à edição de 1966 da Filosofia na Alcova e o consequente processo em Tribunal Plenário de Lisboa. Apresenta-se esta parte do texto de António Carmo Luís (que para tal chegou a entrevistar Fernando Ribeiro de Mello), dividida em dez posts:

Acerca da edição de 1966 da Filosofia na Alcova - Parte X (última)

- Já reparou que o caso Afrodite acaba por chegar a um impasse que parece ter um paralelo com o próprio drama do marquês e da marquesa de Sade? A Afrodite teve apoio público enquanto publicou escândalos nacionais e agora, o seu actual silêncio, a sua actual reclusão, inspiram um certo enfado, um ressentimento...
- Não tenho grandes hipóteses. O momento editorial é mau, e deixou de haver lugar para o meu antigo papel. Não existe nada que me permita editar perigosamente contra.
- Não sei se conhece a peça de Mishima sobre a marquesa de Sade. Será mau teatro, mas um bom livro. È uma peça que mais parece escrita para ser lida, e muito menos representada. Baseando-se no que é sabido da biografia da marquesa, Mishima não oculta que ela apoiou o marido no bem no mal enquanto ele actuou, enquanto ele cometeu actos que o levavam a sucessivas prisões. Havia nisso uma vitalidade redentora que lhe deu ânimo, que a fez sempre defender os seus desvarios. Depois, o marquês quedou-se tempos infindos encarcerado, escreveu na reclusão textos talvez agressivos mas sem aquele papel imediatamente escandaloso em todo o país que alguns actos seus tinham cumprido. A marquesa desiludiu-se e fartou-se. Na última cena da peça, quando a criada vem anunciar que a Revolução libertou o marquês e ele está à porta de casa para ser recebido, ainda aguenta uma derradeira descrição do seu aspecto.
«Está tão modificado, que até tive dificuldade em reconhecê-lo, diz a criada. Traz roupa de lã escura remendada nos cotovelos, e uma camisa de colarinho tão sujo que comecei por tomá-lo por um mendigo. A descrição prossegue, detém-se na corpulência, nos dentes podres...E a marquesa borda, indiferente.
«Charlotte, a criada, prossegue: - Acabou por perguntar-me se não estava a reconhecê-lo. Sou Donatien, Alphonse, Francois, marquês de Sade.
«E sabe o que é que a marquesa responde?
«Responde isto: - Vai dizer-lhe que se vá embora. Olha, diz-lhe ainda mais isto: que a marquesa de Sade nunca mais voltará a recebê-lo.»
- Com esse paralelo não está a ser cruel de mais para mim, para a Afrodite?
- Disse-me há pouco que o seu papel é irrepetível, se esgotou.
- Por favor... traga a conta – diz o ex-editor ao empregado da esplanada, sem ocultar a pressa que sente em sair dali. Começámos a descer o Chiado.
- Vamos dar uma olhadela à Betrand, ver o que tem na montra – proponho eu, para correr para mais longe algumas nuvens que teimam em baixar e em perseguir-nos Garret abaixo.
- Não posso, estou cheio de pressa.
- Ele – Ribeiro de Mello com dois éles, ex-editor do Kama-Sutra, de poesia erótica, de um Sade a sério – queria lá saber!

Lagos, 1990

Acerca da edição de 1966 da Filosofia na Alcova - Parte IX

O elenco da peça tinha acabado por ser impressionante ao concentrar apenas num acto juizes e acessores, testemunhas bem conhecidas da inteligência portuguesa, advogados de nome sonante. Fernando Ribeiro de Mello fora defendido por Manuel João da Palma Carlos, Herberto Helder por Luís Francisco Rebelo, Luiz Pacheco por Fernando da Rocha Calisto. Por falta de posses, Calado Trindade beneficiaria do defensor oficioso Jorge Sampaio.
As sentenças eram aguardadas com uma expectativa que fazia contas a riscos futuros. Jogava-se nelas o futuro grau de bom comportamento exigido às editoras portuguesas. Acabou por ouvir-se que Ribeiro de Mello, seria condenado a oito meses de prisão substituídos por uma multa de 50$00 por dia, em igual tempo de multa à mesma taxa e a um imposto de justiça de 2000$00; que o tradutor Calado Trindade seria condenado a seis meses de prisão substituídos por uma multa de 15$00 por dia, em igual tempo de multa à mesma taxa e a um imposto de justiça de 800$00.
Quando chegou a vez de Herberto Helder, o Tribunal chamou-lhe «cúmplice». E quanto valia ser cúmplice? Três meses de prisão substituídos por uma multa de 25$00 por dia, em igual a tempo de multa à mesma taxa e a um imposto de justiça de 1000$00.
E a actuação de Luiz Pacheco, prefaciador agravado por jeito muito seu para cometer ofensas e fazer troças que embaciavam a dignidade de altos magistrados do país? Só pelo prefácio, seis meses de prisão susbstituidos por uma multa de 20$00 por dia, em igual tempo de multa à mesma taxa e a um imposto de justiça de 900$00; pela honra do Dr. Arnelo Manso gozado na pronúncia, acusado de «cegueta» quando se travara de devassidão comercializada «mai-la sua moralidadezinha», 10 000$00 (na época, dois fabulosos fatos do «espaço» Lourenço A. Santos) à conta de indemnização.
A Editora Afrodite não emergiu, pode dizer-se, das ondas em que estivera mergulhada. Tentou resistir, manter ares que tinham sido da sua graça. Ainda chegou a tocar-lhe outra saída do mercado – uma subversãozinha que a censura não engoliu e se chamava Antologia do Conto Abominável -, perdeu-se um pouco por outras antologias, uma delas promovida com luso-dalianas atitudes na rua do Cabo (o editor dentro de uma banheira gigantesca com água irremediavelmente fria), divagou por textos portugueses há muito esgotados ou mal conhecidos. Às tantas, subitamente largada na Europa, quis ter outro fôlego de outra inspiração.
- Não escreva isso – disse-me o editor, e tinha a voz irritada.
– Ainda era a mesma luta contra o poder. O meu mal foi querer provar, com alguns anos de antecedência, algumas coisas que toda agente agora sabe: os regimes do Leste dividiam a sociedade em classes fortemente hierarquizadas, faziam uma censura feroz às ideias, à liberdade de criação, sob o ponto de vista económico eram uma aldrabice. Tentei dizer isto mas era cedo, quem lia livros preferia acreditar no que lhe convinha.
- Seria preciso chegar ao Mein Kampf de Adolf Hitler? O que tinha ele a ver com os regimes de leste?
- Tinha o seguinte: um discurso praticamente igual, assustadoramente igual. Igual porque discurso caucionador, em todos os regimes totalitários, da necessidade de fazer crer ao povo que a sua dureza é inspirada por princípios nobres e pela vontade de o proteger. Os extremos tocam-se.
- Mas em Portugal já tinha havido eleições democráticas, e a Afrodite insistia nessa cruzada...
- Acha que a situação estava estabilizada? Que já não havia perigo? Lembre-se de que a União Soviética ainda praticava uma política de infiltração, e este canto era muito apetecível como pedra a tomar no xadrez universal.
- Mas era uma estratégia editorial errada. Não basta publicar livros «contra». É preciso haver uma cientela significativa para esse «contra», que suporte essa inspiração editorial. No tempo de Salazar, a Afrodite dirigia-se à vontade de oposição da quase totalidade dos intelectuais portugueses. Nesta segunda fase, os livros publicados não tinham um destinatário suficientemente amplo para suportar os investimentos da edição. Era um suicídio.
- Sempre travei batalhas suicidas, sempre me atirei de cabeça pelas minhas verdades sem medir muito as consequências. Hesitar, seria pressupor uma frieza que eu não tenho, e mau será que um dia venha a tê-la. Editei o Sade quando era impossível editá-lo. O degelo marcelista permitiu alguns Sades sem risco, na Arcádia, na Estampa, creio que na Presença; e depois de não haver censura apareceram dois com linguagem crua, um na & Etc e os volumes de Os 120 Dias de Sodoma. Mas eu editei Sade contra Salazar, com todo o risco que era estar contra ele, editei-o para abalar a censura...
(continua)