Sunday, February 25, 2007

Recital e Colóquio sobre a Novíssima Poesia Portuguesa na S. N. B. A.

António José Forte

Fernando Ribeiro de Mello organizou no dia 26 de Outubro de 1963, na Sociedade Nacional de Belas Artes, um Recital e Colóquio sobre a Novíssima Poesia Portuguesa. António José Forte esteve presente e sobre o evento publicou um artigo no jornal, O Templário, de Tomar, com data de 17 de Novembro de 1963. O texto (que se apresenta em baixo) está incluído na edição Uma Faca nos Dentes, da Parceria A. M. Pereira, «livro, que é, com os dispersos e inéditos que incorpora, a edição definitiva da obra de António José Forte.»


Sábado, 26 de Outubro de 1963, 21,45 horas, Sociedade Nacional de Belas Artes, Lisboa. Recital e Colóquio sobre a Novíssima Poesia Portuguesa. Organização de Fernando Ribeiro de Mello. Recitadores: o organizador, Norberto Barroca, Diogo Ary dos Santos e Madalena Vieira, que não compareceu por se encontrar doente. Para o colóquio tinham sido convidados, para funcionarem como orientadores críticos, David Mourão-Ferreira, presente; Alexandre Pinheiro Torres, que justificou a falta comunicando ter de comparecer num noivado no Norte do País; João Palma-Ferreira, ausente; Natália Correia, presente; Álvaro Salema que, embora tendo prometido ir, se não chovesse, não apareceu; Alexandre O´Neill, que faltou mas apresentou atestado médico; António Quadros, que justificou a falta informando ter de estar em Mirandela para inaugurar uma Biblioteca da Fundação Gulbenkian; Maria Teresa Horta, ausente, por guardar o leito; Gastão Cruz, ausente; Dórdio Guimarães e José Terra, presentes.
Estamos convencidos que o título «Novíssima Poesia Portuguesa» escondia, mal, uma intenção polémica. Doutro modo não se compreende o emparceiramento de Manuel da Fonseca com Natércia Freire, Sebastião da Gama com Natália Correia, Eugénio de Andrade com Salette Tavares, Cesariny com Couto Viana. A não ser que tenha sido a distracção que presidiu a tão inesperados acasalamentos.
Riscados no programa Jorge de Sena, um poema de Cesariny, outro de António Maria Lisboa, Goulart Nogueira, João Rui de Sousa, um poema de José Carlos Ary dos santos, outro de José Terra. Herberto Helder não foi dito, apesar de anunciado, ao que nos informaram, por o ter proibido por carta. Manuel de Castro, também incluído, ficou inexplicavelmente no silêncio.
O recital começou com um poema de José Gomes Ferreira, poeta invisível no programa. Seguiram-se depois 46 poemas correspondentes a 37 autores. Contrariamente ao que de início se poderia supor, a recitação atingiu bom nível, principalmente da parte de Ribeiro de Mello. Embora por vezes tenha deslizado apara a má teatralizarão, soube sempre, ou quase sempre, compreender os poemas e dizê-los em conformidade com essa compreensão. Também Diogo Ary dos Santos teve um início hesitante, mercê talvez do nervosismo e da intimidação que o microfone costuma causar a quem ao mesmo não está habituado. Afinal, acabou por dizer bem, num estilo sóbrio, diferente do de Ribeiro de Mello. Norberto Barroca é que ficou muito aquém dos companheiros, os poemas que lhe couberam dizer saíram por isso bastante desvalorizados.
Terminado o recital houve um intervalo. Depois novamente Ribeiro de Mello apareceu no estrado. Vinha explicar as razões, profissionais uma, de ordem medicinal outras, porque não se encontravam presentes sete dos onze orientadores críticos convidados, e que se tinham comprometido a comparecer. Fê-lo, porém, em termos irónicos, exactamente no tom de quem não acreditava nas desculpas dos ausentes, antes as considerava simples pretextos para escaparem aos debates. Quando se demorava a insinuar que talvez Pinheiro Torres não estivesse realmente num noivado no Norte do País, foi interrompido por Armindo Rodrigues. O autor de «Retrato de Mulher» achava que o organizador estava a ser deselegante, quiçá grosseiro; que nada o autorizava a duvidar das razões apresentadas pelos ausentes, e que, como estava cansado, segundo já afirmara duas ou três vezes, o melhor seria descansar; enfim, que para ser bonito devia ficar por ali. Ribeiro de Mello ficou por ali... no respeitante ao seu cepticismo.
Foi então dada a nota paúlica por um jovem de «pêra» loura e programa em riste, que queria saber porque não fora incluído no programa Luís Veiga Leitão, o autor de «Noite de Pedra», e no mesmo se podia ler o nome de Salette Tavares, «uma senhora que ninguém conhecia». Foi-lhe respondido pelo organizador que, como era de ver, não podiam fazer parte do recital todos os poetas. Mas o jovem estava possesso e insistia na sua: queria Veiga Leitão, ele próprio se oferecia para dizer Veiga Leitão. E a um gesto convidativo de Ribeiro de Mello disparou para o estrado, sob quentes aplausos da assistência. Mal, porém, dissera dois versos dum poema de Veiga Leitão, foi interrompido. Um membro da direcção da S. N. B. A. alegou que o poema não fora censurado e que isso podia trazer graves consequências. Quentes aplausos concordantes da assistência e saída melodramática pela esquerda alta do jovem da «pêra» loura. Afinal Salette Tavares, «a senhora que ninguém conhecia», estava presente. Um senhor de «pêra» preta, que depois soubemos ser David Mourão-Ferreira, levantou-se parlamentarmente e pediu, como sinal de desagravo pela afronta de que fora vítima, uma salva de palmas par autora de «Espelho Cego». A assistência salvou generosamente.
Voltou então Ribeiro de Mello a falar. Achava que devia haver colóquio e por isso convidava Armindo Rodrigues, Luís Francisco Rebello, Urbano Tavares Rodrigues, Salette Tavares e Vasco da Costa Marques a fazerem parte da mesa de orientadores críticos juntamente com os nomes já incluídos no programa e presentes: David Mourão-Ferreira, Natália Correia, Dórdio Guimarães e José Terra. Uma vozinha esvoaçou sobre a assistência para protestar por não fazer parte da mesa nenhum representante ultramarino, que propunha fosse Mário António. Parece que outra vozinha sugeriu para a mesa o nome de do monárquico-católico-fascista Goulart Nogueira. Armindo Rodrigues responde à vozinha ultramarina dizendo que, todos os dias e várias horas, ouvia e lia que a nação era una e indivisível, donde ter de considerar a proposta descabida e especiosa. Entrou então de serviço um senhor de gabardine que começou por dizer que estávamos em guerra, que Portugal era vítima de uma invasão, que a Pátria estava em perigo e que, visto isto, a Pátria não podia alhear-se da vida. Este arrazoado mercenário e mentecapto colheu Armindo Rodrigues distraído. O autor de «Voz arremessada ao caminho» levou a intervenção sério, o que teve por consequência esmerar-se e exceder-se na resposta. Esmerou-se, porque o tal arrazoado não passava disso, e excedeu-se ao declarar que não autorizava que houvesse alguém na sala mais patriota que ele. (Os despropósitos que a palavra Pátria leva a cometer!) E exaltado, patriótico, larga um «Por amor de Deus!» que o deixou estarrecido e que justificou titubeantemente afirmando que era ateu, que aquela frase afinal só revelava o seu portuguesismo. (Várias vezes o senhor da gabardina tentou intervir, até que a assistência percebeu que ele estava ali de serviço mais a sua gabardine, e nunca mais o deixou falar.)
Urbano Tavares Rodrigues tomou a palavra para afirmar que a arte tinha de ser, era sempre humanista, interessada, embora esse interesse fosse duma maneira nas repúblicas socialistas e doutra nas democracias capitalistas; que Portugal, por estar à margem daqueles dois padrões, forçosamente exigia da arte uma terceira forma de interesse; que o poeta só era criador quando escrevia poemas. Esta última afirmação causou, justificadamente, engulhos a um jovem, que se levantou para perguntar se o poeta fora do momento da criação não o continuaria ser. Esta interrogação a pintava com vigor o que devia ser o fulcro do colóquio. Natália Correia tomou a iniciativa de responder ao jovem. No entanto, em vez de aproveitar a deixa, desenvolvê-la e a levá-la o rubro, como julgamos que era seu dever, misteriosamente limitou-se usar um tom maternal a dizer que sim senhor, o poeta era-o sempre. Interveio ainda outro jovem, citando logo de entrada Lucacks, mas confessamos ter compreendido mal a sua exposição. Das intervenções de David Mourão-Ferreira e Salette Tavares – formalmente brilhante a do primeiro e apagada a da segunda – deduziu-se facilmente que o que interessava da Poesia é estar cristalizada em forma de peça literária. Do que está antes e depois do poema é melhor não falar, por causa dos fantasmas.
Um senhor, que afinal era engenheiro e até tinha um lindo nome francês, interveio para declarar as seguintes várias coisas importantes: já tinha uma certa idade (via-se), era careca (via-se também), andava há uma data de anos a tentar compreender a poesia moderna (que ele designava pomposamente por abstracta) e por mais esforços dispendidos não conseguia lobrigar-lhe lógica. Armindo Rodrigues explicou-lhe o caso contando uma anedota verdadeira passada com ele e com um amigo falecido; rematou informando o engenheiro que havia várias lógicas.
Também o monárquico-católico-fascista Goulart Nogueira pediu a palavra para expor a sua tese: grande poesia maior e grande poesia menor, tese que Jorge de Sena igualmente partilha. Menos talvez por causa da tese do que pelo expositor, parte da assistência começou a abandonar a sala.
Entretanto fez o seu aparecimento no estrado um senhor, professor de Liceu, desembaraçado, folião, que queria saber porque é que, estando em letra redonda no programa «Recital e Colóquio sobre a novíssima Poesia Portuguesa», ninguém falava dos poemas ditos ali. Perguntou isto várias vezes, em vários tons, e voltando-se ora para a assistência ora para David Mourão-Ferreira. Este, que o conhecia muito bem, explicou-lhe sorridentemente que sim senhor tinha razão, mas a pergunta implicava estoutra: o que é novíssima Poesia? E terminou afirmando que a intervenção do professor fora «judiciosa» e «jocosa». Chegara-se ao final dos debates falhados – judiciosa e jocosamente.