Tuesday, August 01, 2006

Antologia do Conto Abominável

(edição de 1969)

Capa

Selecção, tradução e notas de Aníbal Fernandes
Prefácio de Vitor Silva Tavares
Capa e orientação gráfica de Carlos Fernandes

Autores e contos:

Edgar Allan Poe –
Hop-Frog
Ambrose Bierce – Óleo de Cão
Léon Bloy –
O Fim do Don Juan
Octave Mirbeau – As Bocas Inúteis
Jean Richepin –
Deshoulières
Alphonse Allais –
Uma Farsa Maldosa
Marcel Schwob –
Os Sem-Fronha
Edward White –
Lukundu
Medeiros e Albuquerque –
O Soldado Jacob
Gaston Leroux – Uma História de Apavorar
Heins Hans Ewers –
“Salsa” em Granada
Maurice Renard –
A Borboleta da Morte
Guillaume Apollinaire – O Rabichão e o Talião
Monteiro Lobato – O Bugio Moqueado
Richard O´Connel –
A Caça do General Zaroff
Dino Buzzati –
Não Esperavam Outra Coisa
Marcel Béalu –
Morta Antes do Tempo
Thomas Owen –
Tu és Poeira...
Tennessee Williams –
O Maçagista Negro
Claude Seignolle –
Um Monstro Alugado ao Quarto de Hora
Ingmar Bergman –
Recordações de Infância de Jack o Estripador
Boris Vian –
As Formigas
Richard Matheson –
Diário de um Monstro
Donald Westlake –
Numa Ilha Deserta
Belen – Amor de Autómato
Arrabal –
Dois Labirintos
Júlio Moreira – O Menino Septentrião

Três Advertências e um Adjectivo

Porque à maior força do abominável convém o círculo rápido que o aprisiona inteiro sem a oportunidades para as cicatrizes dos prolongamentos ausentes, contrai-se a antologia ao domínio do conto. Na decisão ficam todavia excluídos alguns representantes notáveis do abominável: refiro-me em especial a Lautréaumont, ao D. A. F. de Sade de alguns excessos nos 120 Dias de Sodoma
; refiro-me ainda ao Céline, ao Cendrars, ao Faulkner – a muitos outros, sei lá -, ao caso recente do polaco Jerzy Kosinsky; nas letras lusas a um ou outro episódio possível de isolar na torrente inesgotável do Camilo.
Porque à estrutura da antologia não ajuda um vácuo de quinhentos anos, abre-se a recolha em Edgar Poe, esquecendo voluntariamente o conhecido lance de Roussillon e Guardastagne que Boccacio inclui no seu
Decameron
e serve a linha defendida na selecção.
Para além das possíveis omissões que, de importantes, revelem o desconhecimento do antologiador, outras, ausências conscientes, todavia férteis em abominável, podem resultar da exigência imposta de um mínimo de elegância formal (um caso é
O Defundo do brasileiro Thomaz Lopes, outro o Irish Stew do flamengo Jean Ray), ou então pecadilho encontrado na planificação do conto (neste caso está exclusão de Medeia de Alphonse Séché, de O Relógio de Wally Hunter, ou mesmo da Brincadeira de Outubro
, de Bardbury, de resto de um autor as mais das vezes talentoso, por diversas ocasiões excelente).

*

Abominável: adjectivo que o dicionário dá por originário do latim (abominabilis), significando “que excita a aversão, o horror, ou, por extensão, muito mau”. Ao caso interessa-nos a primeira opção . Nela vai inspirar-se a ideia que reúne a presente antologia de algumas dezenas de contos nas variadas tendências, buscando raízes no romantismo, no realismo, no humor-negro, no fantástico, no surreal, na ficção-científica, porém irmanados pela constante que lhes vem da mesma forma de protesto: uma provocação dirigida com maior ou menor eficácia aos centros que em nós desencadeiam a repulsa física, o abalo de que se tem por regras primárias na moral estabelecida, a prática da crueldade à gama elevada da especialidade, a sugestão das formas singulares da montruosidade.

Aníbal Fernandes