Thursday, August 31, 2006

Sobre as Feiticeiras, de Jules Michelet

(edição de Novembro de 1974)

Capa

Colecção Clássicos

Título Original: La Sorciére, 1862
Tradução de Manuel João Gomes
Comentários de Afonso Cautela, Manuel João Gomes, Maria Alzira Seixo e Maria Teresa Horta
Edição e Arranjo gráfico de Edições Afrodite / Fernando Ribeiro de Mello
Edição ilustrada com reproduções de pinturas alusivas ao tema. Entre as quais, Feiticeiras, de Goya.
Sobre Jules Michetet
Um charlatão, um chato.
SAINT-BEUVE

Grande pensador, o progresso e o pensamento hão-de contar-vos entre os seus heróis.
VICTOR HUGO

Diz-se que enquanto trabalhava, por vezes lhe faltava a inspiração; saía então de casa e dirigia-se para um urinol onde reinava um cheiro sufocante. Respirava profundamente, “aproximava-se o mais que lhe era possível do objecto do horror” e regressava ao seu trabalho. Imagino o rosto do autor, nobre, emagrecido, narinas dilatadas.
GEORGE BATAILLE
Para Michelet a primeira forma da Justiça é Satanás, “nome bizarro da liberdade ainda jovem, a princípio militante, negativa e criadora depois, cada vez mais fecunda”. A Feiticeira é na Idade Média depositária da medicina que é, para Michelet, uma técnica de penetração. Ela possui todos os caracteres do princípio masculino. (...) Mais que mulher, é matrona, ou seja sexo superlativo e completo, reunindo em si o poder macho e poder fêmea. Nos momentos em que a história pára completamente, a feiticeira pode conhecer um espécie de degenerência estéril; torna-se profissional: o tema benéfico da fecundação é quebrado pelo tema maléfico da imitação, da mecanização.

Michelet padece de enxaquecas históricas.
Michelet apanha doenças históricas, cada vez terríveis, toma-as sobre si e morre de História da mesma forma que se diz que alguém morre de amor.

Escrever História é para Michelet seguir um itinerário fatal que lhe propõe uma sucessão de asceses e de venturas, fazendo dele um deus ora sofredor ora triunfante, conforme se trate de andar ou repousar. Narrar é calvário, descrever um quadro é a glória, mas é evidente que entre estes dois movimentos há uma relação de tensão.

Tudo ali está ligado, não em virtude de um plano retórico, mas mercê de um certo tempo existencial que faz de Michelet ora viajante ora espectador, ora comedor ora ruminante da História.

Michelet conhece bem o ómega da História (a Revolução), mas não pode prever se vai dispor do tempo necessário para levar a celebração da História a bom termo.
Daí a sua pressa à mistura com angústia... Toda a sua vida está colocada sob a divisa dos duques de Borgonha:
J´ai hâte,
tenho pressa.

ROLAND BARTHES