Friday, March 06, 2026

 


Da biografia de Herberto Helder, Se Eu Quisesse Enlouquecia, escrita por João Pedro George, uma outra passagem onde se refere Fernando Ribeiro de Mello, (páginas 353 e 354):

 

1965 é o ano em que a editora Afrodite, de Fernando Ribeiro de Mello, publicou a célebre Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (dos cancioneiros medievais à actualidade). A selecção dos autores incluídos, o prefácio e as anotações eram da responsabilidade de Natália Correia (apoiando-se, em boa medida, no trabalho de recolha e pesquisa das cantigas de escárnio e de maldizer de M. Rodrigues Lapa, publicado em Vigo meses antes), e as ilustrações de Cruzeiro Seixas (um «homem que pinta», como preferia que o chamassem, em vez de «pintor», designação que irritava a sua vaidade). O livro foi para as livrarias ostentando uma cinta lançada à curiosidade dos leitores, onde se podia ler: «Finalmente num único livro. — A poesia maldita dos nossos poetas; — As cantigas satíricas medievais em linguagem actualizada; — Dezenas de inéditos; — A revelação do erotismo de Fernando Pessoa».

Começando em Martim Soares (século XIII) e terminando em Dórdio Guimarães, a antologia de «poesia proibida pelos usos e costumes editoriais e decoro público» (a frase é da própria Natália Correia, em carta a Armindo Rodrigues convidando-o a entrar naquela antologia) integrava noventa e quatro autores (todos homens, excepto quatro mulheres: Leonor de Almeida, Natália Correia, Ana Hatherly e Maria Teresa Horta), entre os quais Herberto Helder, representado com dois poemas: «Ciclo-I» (do livro A Colher na Boca) e «Lugar-III» (de Lugar).

Cada autor tinha direito a uma nota biográfica, escrita pela organizadora ou pelo próprio. A de Herberto, presume-se pela linguagem utilizada, seria de Natália Correia: «A poesia de Herberto Helder, sempre obsessiva, reflecte como que um imenso orgasmo sem fim. Nela, a mulher — o género, mais que o amor individualizado — a musa universal, receptáculo dos seus excessos e do êxtase que projecta numa insaciável tensão. Daí, a coroação de um erotismo que nele é visceral, orgiástico, e que mais não cessa qual canto cósmico da atitude de amar e da presença matriarcal. Em Os Passos Volta (1963), Herberto Helder intenta com sucesso a novela. Nos contos que compõem este volume, o autor prolonga, numa prosa que é o estuar da sua imaginística, todo o sêmen da sua poesia, e o que resulta é um ritual de si em torno da mulher. […] O erotismo de Herberto Helder, além de ser a mais pertinente constante da sua inspiração, tem a particularidade de se consubstanciar numa sensualidade homérica e luxuriante como a Natureza mais intrincada e primitiva.»

 O livro, naturalmente, desagradou à censura. Receando que a obra pudesse provocar na inocente sociedade portuguesa uma vaga de deboche, o regime acusou o editor, a organizadora e os colaboradores vivos de pornografia, obscenidade e atentado à moral pública.