Wednesday, November 22, 2006

Colaboradores na Colecção Clássicos

Arte de Furtar – Anónimo Séc. XVII

Desenhos: Eduardo Batarda
Arranjo Gráfico: Paulo-Guilherme
Comentários: Natália Correia, Armando Castro, Hernâni Cidade, João Bénard da Costa


Peregrinação – Fernão Mendes Pinto

Versão de Maria Alberta Menéres
Ilustrações: António Areal, Eurico, Carlos Ferreiro
Maqueta da Colecção: Paulo-Guilherme
Arranjo Gráfico: José Marques de Abreu
Comentários: Almeida Faria, Armando Castro, Armando M. Janeira, Eduardo Lourenço, Eduardo P. Coelho, Vítor Silva Tavares


História Trágico-Marítima – Bernardo G. de Brito

Ilustrações: Cruzeiro Seixas, Eurico, José Escada, Carlos Calvet
Fixação de texto, glossário e notas: Neves Águas
Arranjo Gráfico: José Marques de Abreu
Comentários: Fernando Luso Soares, José Saramago, M. Lúcia Lepecki


Grande Livro de São Cipriano ou Os Tesouros do Feiticeiro

Ilustrações: Martim Avillez
Comentários: Padre Álvaro Miranda Santos, António Alçada Baptista, António José Forte, Padre Avelino Rodrigues, Fernando Calixto


O Manual dos Inquisidores – Nicolau Emérico

Frisos Ilustrativos: Eduardo Batarda, Carlos Ferreiro, Nuno Amorim, Diogo Vieira
Tradução e recolha de textos: Manuel João Gomes
Arranjo Gráfico: José Marques de Abreu
Comentários: Manuel João Gomes, Fernando Luso Soares, Bispo do Porto – D. António Ferreira Gomes, Francisco Salgado Zenha, Padre José da Felicidade Alves


O Processo dos Távoras: A Expulsão dos Jesuítas – Conselho de Ministros de D. José I

Coordenação, pontuação e ortografia: Manuel João Gomes
Comentários: Amadeu Lopes Sabino, Fernando Luso Soares, Grupo de Trabalho (João Duarte da Cruz, Ana Martins, António Barros Lima) Manuel João Gomes


Sobre as Feiticeiras – Jules Michelet

Tradução: Manuel João Gomes
Comentários: Afonso Cautela, Manuel João Gomes, Maria Alzira Seixo, Maria Teresa Horta

Colaboradores

Alguns dos colaboradores de Fernando Ribeiro de Mello nas Edições Afrodite



Organização, selecção, revisão de edições

Aníbal Fernandes
E. M. de Melo e Castro
Ernesto Sampaio
Grupo de Docentes da Faculdade de Letras de Lisboa
Isabel Meireles
José Martins Garcia
Manuel João Gomes

Marta Castro Alves
Natália Correia
Vergílio Martinho


Tradutores

Ana Hatherly
Aníbal Fernandes
Armando Costa e Silva
Ernesto Sampaio
Helder Henrique (pseudónimo atribuido a António Manuel Calado Trindade)
Isabel Hub
Jaime de Carvalho
José Martins Garcia
José Vaz Pereira
Jorge Silva Melo
Liberto Cruz
Luísa Neto Jorge
Manuel João Gomes
Nuno Bacelar
Teresa Adão


Ilustradores

Ângelo de Sousa
Carlos Calvet
Carlos Ferreiro
Cid
Cruzeiro Seixas
Eduardo Batarda
Francisco Relógio
Henrique Manuel
João Machado
João Rodrigues
José Rodrigues
Julião Sarmento
Júlio Resende
Lima de Freitas
Martim Avillez
Nuno Amorim
Paulo-Guilherme


Trabalho Gráfico (capas, arranjos, fotomontagem, arte final)

António Sena
Carlos Fernandes
Henrique Manuel
Jorge Cardoso
Jorge Costa Martins
José Marques de Abreu
João Vieira
Nuno Amorim
Rocha de Sousa
Sena da Silva
Sérgio Guimarães
Vitor Belém


Introduções, prefácios, posfácios, notas

David Mourão-Ferreira
E. M. de Melo e Castro
Isabel Meireles
José Augusto Seabra
José Martins Garcia
Júlio Moreira
Luiz Pacheco
Manuel João Gomes
Vítor Silva Tavares


Comentários

A. H. de Oliveira Martins
Eduardo Prado Coelho
José Augusto Seabra
José Carlos Ferreira de Almeida
José Martins Garcia
Maria Alzira Seixo
Rolão Preto
Sanches Osório


Negaram-se a colaborar (que se saiba)

Herbero Helder – Não traduziu a Filosofia na Alcova, Marquês de Sade, edição de 1966
Mário Cesariny de Vasconcelos – Não traduziu a correspondência do Marquês de Sade. Edição que não se chegou a concretizar.

A Sociedade do Espectáculo, de Guy Debord

(edição de 1972)

capa

Nº2 da colecção Ensaio/Documentos
Tradução de Francisco Alves e Afonso Monteiro com acompanhamento e revisão pelo autor.

Na Contracapa

Guy Debord tem sido o director da revista “Internationale Situationiste”, órgão da secção francesa do movimento do mesmo nome de que foi um dos fundadores em 1957. Participou no “Lettrisme” e foi um dos fundadores da “Internationale Lettriste”. Realizador de vários filmes marginais, donde sobressai um surpreendente “Hurlemente en faveur de Sade”, apresentado em 1952, Guy Debord é uma das personalidades mais fascinantes do actual movimento revolucionário que teve destacada intervenção em maio de 68. Implicado nas actividades do movimento na Alemanha, em Inglaterra e Itália, fez-se por vezes, chamar Godi, ou Decayeux. Nasceu em paris em 1931.


Publicado em 1967, sob o título aparentemente pouco elucidativo, “A Sociedade do Espectáculo” oculta uma das grandes contestações revolucionárias. “Num mundo realmente às avessas, o verdadeiro é momento do falso”. E o espectáculo a suprema falsificação da vida. Eis o fulcro central dum livro que, ao mesmo tempo que analisa e critica o capitalismo moderno, tem a coragem de pôr em causa algumas soluções socialistas havidas como definitivas. Uma tese da “Internationale Situationniste”, assinada por Guy Debord, já traduzida em italiano e inglês e de grande influência em certos sectores mais radicais, europeus e norte-americanos
.

Calafate na Poesia Portuguesa Erótica e Satírica – Séc. XVIII – XIX

António Maria Eusébio (Calafate) (1820-1911)

Analfabeto. Autor de rimas de sabor popular, alguns dos seus versos não respeitam a medida habitual, a do verso de sete sílabas, sendo provavelmente compensados pela música que os acompanhava – fenómeno corrente em cantigas ao desafio e improvisos semelhantes.
A par de certo gosto pela sátira, forma de maledicência que as camadas populares recebem geralmente com agrado, o Calafate cultiva uma poesia que por vezes tem o dom de sexualizar todos os ingredientes que utiliza. Elementos da fauna e da flora, gestos comezinhos, atitudes do dia-a-dia, etc. – tudo é percorrido pela insinuação erótica, oferecendo os versos uma leitura dupla. Este jogo semântico, forjando a alegoria, torna-se curioso, nos passos mais felizes, pelo carácter sistemático que assume o texto sob o texto.
De realçar que, a par destas características lúdicas, não é menos lúdico o papel da sintaxe. Repetições frequentes, quiasmos, a pressão da rima sãos outros tantos elementos valorativos desta poesia aparentemente simples. Tal facto vem corroborar a tese – que muitos fingem ignorar – de que em todo o poema dito primitivo a função poética da linguagem é o efectivo motor do texto.

A Quinteira da Panasqueira

Mote

Fui apalpar as gamboas
que a quinteira tem na quinta,
Já tem marmelos maduros,
O Seu bastardo já pinta.

Glosa

Sou mestre na agricultura,
Meu saber ninguém disputa,
Gosto de apalpar a fruta
Quando está quase madura...
Gosto do que tem doçura;
Quero e gosto das mais pessoas
Para apalpar coisas boas;
Da Quinta da Panasqueira,
Com licença da Quinteira,
Fui apalpar as gamboas.

Por toda a parte que andei
Dei cambalhotas e saltos,
Depois de palpar pelos altos
Pelos baixos apalpei.
Por toda a parte encontrei
Fruta branca e fruta tinta;
Para que a dona não se sinta
Nunca direi mala da boda,
Apalpei fruta toda

Que a quinteira tem na quinta

Neste tão lindo arvoredo
Não há fruta como a sua,
Foi criada em boa lua
Para amadurecer mais cedo.
Menina, não tenha medo
Que os seus frutos estão seguros,
Ou sejam moles ou duros
Todos a tem em estima,
Na sua quinta de cima
Já tem marmelos maduros.

Tem uma árvore escondida
Num regato ao pé dum poço,
Que dá fruta sem caroço
Chamada gostos da vida.
Dessa fruta pretendida
Que a menina tem na quinta,
se acaso tem uva tinta
A menina dê-me um cacho,
Que na sua quinta de baixo
O seu bastardo já pinta.



Resposta da Quinteira

Mote

Fui apalpar os tomates
Que tinha o meu hortelão,
Mostrou-me o nabal que tinha
Meteu-me o nabo na mão.

Glosa

Sou mestre na agricultura,
Tenho terra para cavar,
Gosto sempre de apalpar
Se a enxada é mole ou dura.
Ser amiga da verdura
Não são nenhuns disparates;
Enchi alguns açafates
De tomateiros de cama,
Depois de apalpar a rama
Fui apalpar os tomates.

As sementes tomateiras
Nascem por dentro e por fora,
Semeiam-se a toda a hora
Dentro de fundas regueiras.
Tão brilhantes sementeiras
Dão gosto e satisfação.
Dentro do meu regueirão
Dão-me as ramas pelos joelhos
Que tinha o meu Hortelão!

Só de vê-los e apalpá-los
Faz andar a gente louca,
Faz crescer água na boca
E a língua dar estalos.
Meu hortelão tem regalos
Tem hortaliça fresquinha;
No vale da carapinha
Tem um tomateiro macho,
Abriu-me as porta de baixo,
Mostrou-me o nabal que tinha.

Tinha grelos e nabiças,
Tinha tomates graúdos
Tinha nabos ramalhudos
Com as cabeças roliças
Tão brilhantes hortaliças
Meteram-me tentação;
Era franco o hortelão,
Deu-me uma couve amarela
Para me dar gosto à panela,
Meteu-me o nabo na mão.

Curvo Semedo na Poesia Portuguesa Erótica e Satírica – Séc. XVIII – XIX

Curvo Semedo (1766-1838)

Denegrir Bocage – eis o que não deixaria de agradar aos defensores da velha ordem, não só porque Bocage foi irreverente para com os colegas de letras, mas também porque ameaçava alguns pruridos enraizados na “excelente” sociedade portuguesa. Assim, havia que rebaixar-lhe o mérito poético e dar-lhe por coro fúnebre os lamentos das “moças venais” e dos “ pedantes”. Note-se que a sátira de Curvo Semedo, presente no soneto que aqui reproduzimos, se insere no âmbito da maledicência literária, bem como no aproveitamento da vida privada para a ”vingançazinha”.


Morreu Bocage, sepultou-se em Goa!
Chorai, moças venais, chorai, pedantes,
O insulto estragador dos consoantes,
Que tantos tempos aturdiu Lisboa!

Por aventuras mil obteve a coroa
Que a fronte cinge dos heróis andantes;
Ainda veio de climas tão distantes
À toa vegetar, versar à toa.

Este que vês, com olhos macerados.
Não é Bocage, não, rei dos brejeiros,
São apenas seus ossos descarnados;

Fugiu do cemitério aos companheiros;
Anda agora purgando seus pecados
Glosando aos cagaçais pelos outeiros.

Bocage na Poesia Portuguesa Erótica e Satírica – Séc. XVIII – XIX

Bocage (1765 – 1805)

Temperamento contraditório – como diversas vezes tem sido assinalado por literatos e comentadores da literatura -, Bocage representa talvez a melhor síntese da miséria sexual portuguesa, nos seus aspectos mais paradoxais.
Do racionalismo francês assimila algumas ideias gerais, mas acabou a sua produção poética com o “Rasga meus versos, crê na Eternidade!”. Porque a Razão lhe aponta o absurdo do Inferno, com seu fogo e seus caldeiros, denuncia-o como fábula repressiva na “Pavorosa Ilusão da Eternidade”; mas nem por isso dispensa um Deus justo e bondoso, "Pai" compreensivo para com a cópula.
Capaz duma afirmação erótica libertadora, exaltada, a rondar a máxima pureza (cf. As epístolas de Alzira a Olinda e o fragmento da “Pavorosa Ilusão” aqui reproduzido), Bocage á também um autor pornográfico (cf. “A Ribeirada”, o poema dedicado a Manteiguiu e os sonetos).
Esta segunda faceta, que lhe terá valido a popularidade e a atribuição de muita versalhada de duvidosa autoria, longe de contestar uma sociedade tacanha, denuncia a cumplicidade do autor com um tipo de maledicência muito ao gosto nacional: o picante do adultério e da cornadura, em relação com o priapismo e a ninfomania. Ao dar às suas personagens estas duas últimas características, Bocage dá largas à sua veia heroi-cómica, numa linguagem hiperbólica que não chega a mascar a ressentimento. A virilidade alheia, satirizada em proporções ciclópicas, actua como compensação da frustração e da carência próprias.
A ninfomaníaca, poço insaciável de machos fenomenais, é o fruto cobiçado e inatingível, vingativamente degradado na imaginação.
Tudo se passa como so apelo erótico, recebendo o silêncio por resposta, não encontrasse outra saída senão a inveja em relação à vivência alheia. Dai a sonhada exaltação dos corpos, contraposta pela degradação dos mesmos.
Em suma: a confirmação da marginalidade. Um lenitivo: o auto-sarcasmo. Quando Bocage escreve

“Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu, sem ter dinheiro.”

leia-se a angústia disfarçada dum marginal, perseguido pela miséria sob todas as formas, e que gostaria de ter atirado um certo estilo de libertinagem à cara dos respeitáveis desse tempo. Mas a sociedade estava bem protegida...como sempre!

Soneto II

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade;

Não quero funeral comunidade,
Que engrole sub-veintes em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade.

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

“Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.”

Filinto Elísio na Poesia Portuguesa Erótica e Satírica – Séc. XVIII – XIX

Filinto Elísio (1734 – 1819)

Francisco Manuel do Nascimento foi um entre os muitos que tiveram de emigrar por causa das “idéias”. Consta ter sido denunciado pela própria mãe, em confissão. As polícias secretas têm sempre muitos e vários admiradores...
Não admira que Filinto Elísio, de quem se tornou notória a pobreza de exilado, associe, em suas amargas sátiras, a cupidez do Clero aos costumes menos morais dos seus ministros.

Soneto

Nasci – logo a meus pais custou dinheiro
o baptismo, que Deus nos dá de graça.
Tive uso de razão – Perdi a graça –
dei-me ao rol chegou a páscoa – dei dinheiro.

Quis casar com uma moça – mais dinheiro.
Brinquei com ela – não brinquei de graça:
Que aos nove meses me custou a graça
Para o Mergulhador capa e dinheiro.

Morreu minha mulher – não achei graça
e menos graça no arbitral dinheiro
da oferta; que o prior não vai de graça.

Se o ser sacristão requer sempre dinheiro,
como cumprem com dar graças de graça
o que as graças nos vendem por dinheiro?

Wednesday, November 08, 2006

Poesia Portuguesa Erótica e Satírica - Séc. XVIII - XIX

(edição de Maio de 1975)

capa

Selecção, prefácio e notas de José Martins Garcia
Ilustrações (11) e capa de Henrique Manuel


Autores Antologiados

Caetano José da Silva Souto-Maior
Braz da Costa de Mendonça
Abade de Jazente
Correia Garção
António Lobo de Carvalho
Cruz e Silva
Filinto Elísio
Nicolau Tolentino
José Agostinho de Macedo
Bocage
Curvo Semedo
Sebastião Xavier Botelho
João Vicente Pimentel Maldonado
José Anselmo Correia Henriques
Pato Moniz
Pedro José Constâncio
Almeida Garret
António Maria Eusébio (Calafate)
João de Deus
Guilherme de Azevedo
Antero de Quental
Guilherme Braga
Gomes Leal
Guerra Junqueiro
Cesário Verde
Xavier de Carvalho
António Nobre
José Duro

Ilustração de Henrique Manuel

Texto na badana. Parte do prefácio, intitulado: A “Colónia” Lusitana.

A literatura erótica de uma comunidade constitui a mais genuína expressão da sua liberdade ou da sua frustração, da sua capacidade criadora ou da sua inibição. No caso português, a linguagem relativamente livre da obra de um Gil Vicente traduz uma concepção socio-cultural que a Inquisição não tolerou. Para a Inquisição e para o privilégio católico-feudal que ela defendia, a regra não podia deixar de ser a proscrição do “sexo”.Todos os opressores da inteligência, os coetâneos como os futuros, sentiram a necessidade de subtrair esta poesia o grande público. O público não deve ter acesso à miséria sexual daqueles que passam por excelentes mentores dos povos. Neste jogo hipócrita que se prolonga até aos nossos dias, colaboram os moralistas de todos os escalões sociais, mesmo aqueles que, famintos de pão e de parceiro sexual, emitem pareceres reprovadores, porque nem coragem têm de sonhar a liberdade. Nenhum poder encara com agrado que alguém fale do “sexo”. A nossa sociedade não é muito diferente daquela que perseguiu Sigmund Freud. Muito menos simpatia merecerá tal matéria, se ele nos vem revelar traumatismos, deformações, chagas, miséria – as consequências do permanente colonialismo que nos têm imposto.

Uma Laranja para Alberto Caeiro

Um poema de O Vinho e a Lira, de Natália Correia


Uma Laranja para Alberto Caeiro

Venho simplesmente dizer
Que uma laranja é uma laranja
E comove saber que não é ave

se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.

Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas e diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que apode rodear.

Sei que depois de laranja
a laranja poderá ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exacta fome inadiável.

De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce.

O Vinho e a Lira, de Natália Correia

(edição de 1966)

Natália Correia

Colecção Sagir (poesia) - I
Edição de Fernando Ribeiro de Mello
Edição perseguida pela PIDE. Capa em material aveludado.



O Vinho e a Lira

A oriente sou toda lira
exacta dérmica solar
biografo-me a desenho à pena
com a tinta da estrela polar.

À maternidade da pedra
restituo a casa a levante
e o teu sorriso é navegável
sem rápidos de ciúme e sangue.

Por esse lado tive infância
e derreto a neve das fotografias
destapando o quebra-luz
de uma tépida estampa de tias.

A meu oriente de polido mogno
meu verso tem cadeiras e o habito
com amigos e respiram os móveis
um sossego de folhas de eucalipto.

A sul se eriçam as crinas
se ateiam os cascos do meu verso esquino
druídica me visto de visco lunar
matéria friável de cânhamo e vinho

essa a minha álea de longifólias
acácias à velocidade do crime
por ela em teu coro linha de comboio
me deito à espera que o amor se aproxime

esse o meu jusante de minério e tirso
esse o meu amigo o que não conheço
essa a minha casa a quer não habito
minha alma estrela meu nenhum endereço

Acerca da edição de 1966 da Filosofia na Alcova - Parte VIII

Ninguém duvidava de que estivesse na forja um processo exemplar e com pretensões a garantir entre os rebeldes um efeito dissuasor que as memórias se encarregariam de alargar por muitos anos; capaz de fazer sentir aos homens da cultura que havia regras em Portugal, insensíveis aos figurinos de uma Europa que parecia preparar-se para novas aberturas e se dispunha, por exigências desmedidas dessa abertura, a alargar os cordões à sua decência.
Viu-se, entretanto, que David Mourão-Ferreita era o que podia chamar-se “um homem de sorte”. O seu prefácio alegara razões e desenvolvera ideias que escapavam por completo ao centro do processo, argumentara incipiências de estilo e estrutura, uma repulsa em nome pessoal pelo universos do autor e pelo vexame que era sentir-se, quando o lia, com muitos bons sentimentos, e tudo isto a Judiciária confundira com as suas próprias razões sem reparar que nunca se perfilhava ali o seu ponto de vista – o crime da divulgação do texto “pornográfico”, o que significava de intolerável ultraje à moral pública. Com este equívoco o seu nome já não figuraria na segunda fase do processo, era arreado da grande encenação de poder que anunciava para breve a sua festa.
Quanto a João Rodrigues, réu indiscutível, não chegou vivo à audiência. Talvez seja difícil explicar a nuvem negra que andava com ele por Lisboa, que lhe soprava angústias e humores de uma grande ferocidade, que a suas horas lhe complicava (sic) o talento com fantasmas que já não iludiam – os fantasmas de quem está por um fio. Poderá arriscar-se que ouviu um segredo insuportável; que foi arrancado ao estirador do seu desenho técnico e compelido a estatelar-se de salto, janela fora, num passeio da idade.
Os arguidos reduziram-se, pois, a quatro quando o Tribunal Plenário julgou este caso de “abuso de imprensa”: estava-se a 19 de Outubro de 1967, um ano e meio decorrido desde a altura em que fora posta a circular a Filosofia na Alcova.
O Tribunal ouviu, ripostou e concluiu o que estava concluído: tratava-se de um texto e de ilustrações “abertamente pornográficas”, “atentatórios da decência, dos bons costumes e da moralidade pública, para além do valor que, sob qualquer outro aspecto literário, se pretendesse atribuir a tal obra.” “Só por um desvio de entendimento, forçado pela necessidade de defesa do que normalmente a moral pública rejeita, se poderia alegar que a divulgação em língua portuguesa daquela obra obedecera a fins culturais.”
“Era de todos sabido que, aos vulgares leitores de semelhantes escritos, não interessava, nem a forma literária do livro, nem o estado psíquico do seu autor, nem o reflexo sua obra como fenómeno de patologia sexual, mas sim e unicamente quanto de lúbrico se continha em suas narrativas, impregnadas de provocante erotismo.
“Apelidar de cultural o fim que ditara a publicação do livro era trair o significado de cultura, na medida em que À sua sombra se conspurcavam princípios morais protegidos por lei, sem se ter em conta o que de digno devia prevalecer numa autêntica e salutar cultura humanista.
“De resto, não estava somente em causa a narração pormenorizada de aberrações e vícios que os seres normais repeliam, mas que os pervertidos sexuais aceitavam e imitavam. A tradução revelava extremos de sujidade próprios de uma obra predestinada a contribuir para a depravação dos costumes, sem respeito sequer pelo decoro da linguagem que sempre foi apanágio de toda a literatura que se diz cultural.
“Os vocábulos usados, da mais requintada obscenidade, eram por tal modo ultrajantes e grosseiros, que nem os dicionários de uso mais vulgar os inseriam, certamente para não ofenderem a moral pública, no sentido em que este conceito era considerado normalmente.
A indignação prolongava argumentos, acusava indecentes as ilustrações do réu falecido, apontava a ineficácia do aviso aos livreiros inserido no livro para concluir que todos os arguidos tinham cometido crime de ultraje à moral pública através da imprensa e o conteúdo da obra era um estendal de matéria ofensiva. Só faltava o fim, a sentença que iria graduar penas pela dimensão dos delitos, estabelecer penitências – em dias de prisão remíveis (calculava-se já) a troco de escudos.
(continua)
#0 #1 #2 #3 #4 #5 #6 #7

Saturday, November 04, 2006

Antologia do Conto Fantástico Português, 1ª Edição

(edição de 1967)

capa

Capa de Rocha de Sousa
Orientação gráfica de João Vieira

Autores e contos:

Alexandre Herculano – A Dama Pé de Cabra
Rebelo da Silva – A Torre de Caim
Camilo Castelo Branco – O Esqueleto
Júlio César Machado – Uma Récita do Roberto do Diabo
Manuel Pinheiro Chagas – A Igreja Profanada
A. Osório de Vasconcelos – A Torre Derrocada
Teófilo Braga –
O Véu
Álvaro do Carvalhal – Os Canibais
Eça de Queirós – O Defunto
Fialho de Almeida – A Princesinha das Rosas
M. Teixeira Gomes – Sede de Sangue
Raúl Brandão – O Mistério da Árvore
Aquilino Ribeiro –
A Reincarnação Deliciosa
Mário de Sá-Carneiro – A Estranha Morte do Prof. Antena
José de Almada-Negreiros – O Cágado
Ferreira de Castro – O Senhor dos Navegantes
José Régio – O Caminho
José Rodrigues Miguéis – Regresso à Cúpula da Pena
Tomaz de Figueiredo – O Gavião
Domingos Monteiro – Casa Mortuária
Branquinho da Fonseca – O Anjo
José de Lemos – A Ritinha
António Quadros –
Pesadelo
Natália Correia – O Aplaudido Dramaturgo Curado Pelas Pílulas Pink
Urbano Tavares Rodrigues – Trânsito
Carlos Wallenstein – A Maravilhosa História do Internamento
David Mourão-Ferreira – Nem Tudo é História
Ana Hatherly – No Restaurante
Maria Alberta Menéres – O Elephans-Pinguim
Vasconcelos Sobral – O Odionauta
E. M. de Mello e Castro – Eu Índice N
Vítor Silva Tavares – Não, Não Foi de Herói,
Dórdio Guimarães – O Homem das Batalhas
António Barahona da Fonseca – A Viúva Ester
Almeida Faria - Peregrinação

Nota do Editor

Com a presente antologia, que não é nem poderia ser definitiva, procurou-se reunir alguns dos textos mais significativos do conto fantástico na literatura portuguesa.
Iniciando-se no Romantismo – a época em que o género floresceu e garantiu direito de cidadania -, atravessando os inúmeros “ismos” da segunda metade do século XIX e da presente centúria, esta antologia abrange uma vasta panorâmica de autores, desde Alexandre Herculano aos representantes da novíssima geração literária.
O critério adoptado, embora amplo (isto é, sem o rigor de uma estrita ortodoxia), permitiu que tão-só fossem incluídos aqueles textos que mergulham numa atmosfera de estranheza e em que se manifesta a irrupção de elementos insólitos ou inexplicáveis.
Assim, tanto figuram no volume composições que se inscrevem no domínio da literatura “negra” como as que se colocam sob o signo do maravilhoso, o onírico e do sobrenatural – critério extensível ao âmbito, científico ou para-científico, da literatura de antecipação.
Não será pois descabido afirmar-se que os textos seleccionados oferecem, pela primeira vez entre nós, uma visão de conjunto de um género bem vincado (embora por explorar críticamente) na literatura portuguesa e cuja importância não deixa de crescer no panorama da modernidade literária internacional.
Resta agradecer a quantos, autores e colaboradores, tornaram possível a edição, quer enviando produções originais quer sugerindo outras de inegável riqueza emocional e estética. Abre-se agora ao leitor não contaminado pelos aspectos menores da realidade dita do quotidiano o reino, sobre todos sugestivo, da livre, esplendorosa, bizarra imaginação criadora!
...Que lhe faça bom proveito...